O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou, em 11 de março de 2025, a Resolução nº 615, que estabelece a Política de Uso de Inteligência Artificial no âmbito do Poder Judiciário brasileiro. A norma já está em vigor e representa um marco importante na regulamentação do uso de tecnologias baseadas em IA em processos judiciais e administrativos.
O texto completo está disponível no portal do CNJ:
🔗 Acesse a Resolução nº 615/2025
Entenda os principais pontos
A norma consolida avanços trazidos pela Resolução nº 332/2020 e atualiza o marco regulatório para tecnologias modernas, especialmente IA generativa. Entre os fundamentos jurídicos e éticos destacados estão:
- Supervisão humana obrigatória, com juízes mantendo integral responsabilidade sobre decisões geradas por IA;
- Transparência e auditabilidade de algoritmos utilizados, com registro de versões, critérios e eventuais impactos nos processos;
- Vedação a decisões automatizadas de mérito sem revisão judicial, assegurando o respeito ao devido processo;
- Proteção de dados pessoais, com restrições rigorosas ao uso em modelos de IA e aplicação da LGPD;
- Criação do Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário, com participação do CNJ, tribunais e entidades como OAB, MP e sociedade civil.
O que muda na prática?
A partir de agora, todos os tribunais devem:
- Auditar e documentar criteriosamente os sistemas de IA;
- Garantir que a supervisão humana esteja presente em cada etapa;
- Implementar governança técnica e ética, conservando histórico de logs;
- Assegurar privacidade e tratamento correto de dados pessoais;
- Integrar o Comitê de IA na revisão e fiscalização contínua.
A Resolução nº 615/2025 também impacta diretamente as empresas que desenvolvem ou fornecem soluções de inteligência artificial ao Poder Judiciário. A partir de agora, essas organizações precisarão redesenhar seus produtos, incorporando critérios de explicabilidade, rastreabilidade e supervisão humana obrigatória.
Além disso, será necessário revisar contratos já firmados ou em negociação, inserindo cláusulas específicas de conformidade regulatória, segurança da informação e aderência à LGPD. A resolução também exige uma postura mais ativa na produção de relatórios de auditoria, com a identificação e classificação de riscos de cada sistema oferecido.
Por fim, empresas que desejam se manter como parceiras estratégicas do Judiciário devem estar preparadas para colaborar tecnicamente com os tribunais, contribuindo para a estruturação de comitês internos de governança de IA e ajudando na implementação de boas práticas jurídicas, éticas e tecnológicas.
Referências
- Resolução nº 615/2025 – CNJ
🔗 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/6150
- TJMG – CNJ estabelece regras para uso de IA no Judiciário
🔗 https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/informes/ia-cnj-estabelece-normas-para-uso-da-tecnologia.htm
- Agência Brasil – Norma do CNJ autoriza uso de IA com revisão judicial
🔗 https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-02/norma-do-cnj-autoriza-decisoes-escritas-por-ia-e-revisadas-por-juiz
- Conjur – Inteligência artificial na Justiça brasileira: desafios éticos e caminhos normativos
🔗 https://www.conjur.com.br/2025-mar-15/inteligencia-artificial-na-justica-brasileira-desafios-eticos-e-caminhos-normativos/
- LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018)
🔗 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm
- Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014)
🔗 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm
- CNJ – Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário
🔗 https://www.cnj.jus.br/tecnologia-da-informacao-e-comunicacao/comite-de-ia/
- Relatório CNJ – Panorama do uso de IA no Judiciário (2023)
🔗 https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2023/12/Relatorio-IA-CNJ-2023.pdf
- CNJ – Diretrizes éticas para uso de IA no Judiciário
🔗 https://www.cnj.jus.br/ia-justica/resolucao-332-e-diretrizes-eticas/
- Guia da OCDE sobre Princípios de IA confiável (tradução oficial)
🔗 https://www.gov.br/economia/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/consultas-publicas/arquivos/oecd-principios-inteligencia-artificial-traducao-oficial.pdf