Governança corporativa e compliance: por que o risco deixou de […]
Durante muito tempo, a gestão de riscos foi tratada pelas empresas como uma atividade defensiva, voltada a evitar prejuízos e reagir a eventos adversos. Essa abordagem continua importante, mas já não é suficiente em um ambiente de maior complexidade regulatória e cobrança por transparência.
Empresas que identificam e tratam riscos com antecedência tomam decisões mais consistentes, direcionam recursos com maior eficiência e respondem melhor às mudanças de mercado. Nesse contexto, governança corporativa e compliance convertem incertezas em informações úteis para a gestão.
Muito mais do que prevenir irregularidades, essas estruturas favorecem crescimento sustentável e aumentam a confiança de investidores, instituições financeiras, clientes e parceiros.
A governança corporativa reúne mecanismos de direção, monitoramento e controle. Seu objetivo é definir responsabilidades, organizar decisões e assegurar que as escolhas da administração sejam transparentes, justificadas e alinhadas aos interesses da empresa.
A base jurídica dessa atuação apoia-se, entre outras referências, nos deveres dos administradores previstos na Lei nº 6.404/1976 (Lei das S/A), que consagram o dever de diligência, o dever de lealdade e o dever de prestar informações, estruturando parâmetros de conduta e responsabilização no âmbito societário. Esses dispositivos legais formam o núcleo normativo que orienta a atuação diligente e transparente dos administradores perante a companhia, os acionistas e o mercado.
Complementarmente, o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC oferece diretrizes reconhecidas no meio empresarial, adaptáveis a organizações de diferentes portes e níveis de maturidade.
A combinação entre a exigência legal e as práticas recomendadas confere maior consistência e solidez técnica à atuação adotada.
Se o contrato ou estatuto social não reflete as contribuições dos sócios, os quóruns de decisão, as regras de saída e a titularidade dos ativos essenciais, divergências comuns podem paralisar a operação.
Quando aportes, distribuições de resultados, operações com partes relacionadas e decisões estratégicas não são formalizados, uma due diligence pode resultar em pedidos de garantia, retenção do preço, redução do valuation ou interrupção da negociação.
Documentos societários adequados, atas, autorizações, livros e contratos atualizados criam rastreabilidade. A organização societária deixa de ser formalidade e passa a proteger a continuidade e o valor da empresa.
Para aprofundar a análise prévia de passivos e documentos em operações estratégicas, leia também: Due Diligence Empresarial: como avaliar riscos e proteger sua empresa antes de fechar negócios.
Sem uma matriz de riscos integrada, as áreas financeira, comercial, operacional e jurídica podem manter controles isolados, classificar o mesmo evento de formas diferentes e deixar riscos relevantes sem responsável ou tratamento.
Na abertura de uma nova unidade, por exemplo, a projeção de receita precisa ser confrontada com riscos regulatórios, contratuais, ambientais, trabalhistas, tecnológicos e reputacionais. Caso contrário, a decisão pode não refletir o custo real da expansão.
Uma matriz com critérios comuns de probabilidade e impacto, responsáveis, prazos e planos de resposta transforma informações dispersas em uma visão executiva e permite tratar riscos antes que comprometam a estratégia.
Compliance é a aplicação prática dos compromissos de conformidade e integridade assumidos pela organização. Um programa efetivo combina políticas, treinamentos, controles, canais de denúncia, procedimentos de apuração e monitoramento contínuo.
A estrutura deve ser proporcional ao porte, ao setor e aos riscos da empresa. Documentos genéricos, sem responsáveis ou conexão com a operação, tendem a produzir burocracia sem reduzir a exposição jurídica, financeira ou reputacional.
Considere uma empresa em que a mesma pessoa solicita uma compra, escolhe o fornecedor, aprova o pagamento e confere a entrega. Se esse gestor contratar uma empresa ligada a um familiar, a falta de segregação aumenta o risco de favorecimento ou sobrepreço.
A solução pode ser simples: separar as etapas, exigir declaração de conflito, estabelecer alçadas por valor e registrar a justificativa da escolha. Esses controles criam rastreabilidade e oferecem maior segurança para administradores e sócios.
Segundo a International Finance Corporation (IFC), melhorias em governança contribuíram para viabilizar US$ 11 bilhões em financiamento globais, dos quais US$ 1,9 bilhão vieram da própria instituição.
A OCDE relaciona transparência e confiança ao investimento de longo prazo, à estabilidade financeira e à resiliência empresarial. Além disso, o Banco Mundial também aponta que empresas com estruturas de governança maduras tendem a apresentar menores riscos e melhor acesso a financiamento externo.
Essas referências não significam que controles isolados garantam crédito mais barato. Demonstram, porém, por que transparência, organização e qualidade decisória integram a análise de investidores e financiadores.
Compromissos ambientais, sociais e de governança precisam estar apoiados por dados, responsabilidades, controles e evidências compatíveis com o que a empresa comunica ao mercado.
No mercado de capitais, a CVM concentra o conjunto de exigências de transparência aplicáveis às companhias abertas, às ofertas públicas de valores mobiliários, às securitizadoras e aos fundos de investimento, conforme o caso. Essa estrutura regulatória se insere na agenda de finanças sustentáveis conduzida pela Autarquia, que busca alinhar o mercado brasileiro aos padrões internacionais de divulgação de informações sobre sustentabilidade.
Nesse contexto, a Resolução CVM nº 244/2026 representa um marco relevante ao tratar da adoção dos padrões CBPS e ISSB. Ainda assim, o reporte baseado nessas normas permanece de natureza voluntária, condicionado a requisitos específicos definidos pela própria regulação. Trata-se, portanto, de um estágio de transição rumo à consolidação futura desses padrões no arcabouço normativo nacional.
No setor financeiro, a Resolução CMN nº 4.945/2021 exige que instituições abrangidas estabeleçam uma Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática proporcional ao modelo de negócio e à exposição aos riscos, estruturada de forma proporcional ao modelo de negócio adotado.
Essa proporcionalidade considera também o grau de exposição da instituição aos riscos socioambientais e climáticos inerentes à sua atuação. A norma reflete a crescente preocupação regulatória em integrar critérios de sustentabilidade à gestão de riscos financeiros tradicionais.
Para empresas fora desses setores, as normas não se aplicam automaticamente. Ainda assim, seus efeitos podem chegar por contratos, exigências de crédito, due diligence, cadeias de fornecedores e solicitações de investidores, o que torna a adoção dessas práticas uma vantagem competitiva relevante no mercado.
Para compreender como essas exigências se conectam à estrutura jurídica e à gestão empresarial, confira: Compliance e ESG: estrutura jurídica, riscos de governança e critérios técnicos de implementação.
A implementação deve começar por um diagnóstico da estrutura societária, dos processos decisórios, das obrigações regulatórias e dos principais riscos inerentes ao negócio. A partir disso, a empresa pode definir prioridades compatíveis com sua realidade e iniciar a execução do seu plano de ação.
Um plano inicial pode incluir:
• mapear riscos constantemente em uma matriz integrada;
• definir responsáveis, alçadas decisórias e fluxos de aprovação;
• revisar e manter documentos societários atualizados, bem como formalizar decisões relevantes;
• separar funções incompatíveis e tratar conflitos de interesse;
• criar políticas, indicadores de risco e de performance, além de mecanismos de monitoramento;
• revisar os controles diante de mudanças regulatórias e estratégicas.
O envolvimento da alta administração é indispensável para que o processo seja bem-sucedido. Sem liderança, recursos e acompanhamento, governança corporativa e compliance tendem a permanecer no papel.
Empresas em processo de expansão também podem aprofundar o tema no artigo: Startups: critérios de avaliação de escalabilidade e riscos jurídicos.
Quando integrados à estratégia, governança corporativa e compliance qualificam decisões, reduzem vulnerabilidades e aumentam a previsibilidade das relações empresariais.
A empresa que conhece seus riscos, documenta suas decisões e demonstra controle sobre seus processos está mais preparada para crescer, captar recursos e atravessar uma auditoria ou due diligence.
O primeiro passo é transformar riscos dispersos em prioridades claras, com responsáveis e planos de resposta. Para isso, uma assessoria jurídica é indispensável. Aqui na Sotto Maior & Nagel somos especialistas em construir programas personalizados de governança corporativa e compliance, com o propósito de garantir que a integridade deixe de ser apenas uma obrigação e passe a sustentar o valor do negócio.
Por
Matheus Oliveira