A empresa gravou um vídeo institucional com um funcionário, um […]
A empresa gravou um vídeo institucional com um funcionário, um cliente ou um influenciador, tudo devidamente autorizado. Meses depois, o time de marketing corta aquele material em reels, transforma um quadro em thumbnail, monta um teaser e reaproveita tudo em uma nova campanha.
Parece apenas aproveitar bem o conteúdo. Juridicamente, porém, cada um desses desdobramentos pode ser um novo uso da imagem, e o novo uso nem sempre está coberto pela autorização original. A pergunta que quase ninguém faz na hora de editar é a mais importante: até onde vai aquele sim que a pessoa deu lá no começo?
Este artigo explica, com foco em direito de imagem, quando cortes, reels, shorts, teasers, thumbnails e reaproveitamentos exigem nova autorização e como redigir o documento para permitir o desdobramento com segurança.
O ponto de partida é entender a natureza do direito de imagem. Ele é um direito da personalidade e, como tal, o artigo 11 do Código Civil estabelece que o seu exercício não pode sofrer limitação voluntária, salvo nos casos previstos em lei.
A doutrina consolidou essa ideia no Enunciado 4 da Jornada de Direito Civil, segundo o qual a limitação voluntária dos direitos da personalidade é possível, desde que não seja permanente nem geral. Traduzindo para a prática: a autorização de uso de imagem precisa ser específica, e autorizações genéricas e ilimitadas são juridicamente frágeis.
Some-se a isso o artigo 20 do Código Civil, que permite proibir o uso da imagem quando ele atinge a honra da pessoa ou se destina a fins comerciais sem autorização. O uso comercial da imagem depende, portanto, de um consentimento que tem contorno definido.
A consequência é direta. Toda autorização de imagem tem um escopo, e é dentro desse escopo que a empresa pode agir. Fora dele, o uso volta a depender de nova permissão.
Uma autorização de imagem bem compreendida se define por cinco perguntas: para qual finalidade, em quais meios ou canais, em qual formato, por quanto tempo e em qual território. Cada uma dessas dimensões é uma fronteira.
O formato costuma ser a dimensão mais ignorada. Autorizar a veiculação de um vídeo institucional não é, automaticamente, autorizar que ele seja recortado em dezenas de peças curtas, verticais, para outras plataformas e com outra linguagem. São usos diferentes do mesmo material.
Vale lembrar que o vídeo também é uma obra, e o artigo 4º da Lei de Direitos Autorais determina que os negócios jurídicos sobre direitos autorais se interpretam restritivamente. A mesma lógica restritiva é aplicada, pela prática, às autorizações de imagem. Na dúvida sobre o alcance, prevalece a leitura mais limitada, em favor de quem cedeu a imagem.
Por isso, o silêncio da autorização não joga a favor da empresa. Se o documento não previu o corte, o reel ou o reaproveitamento, o mais provável é que esses usos estejam fora do combinado.
Há um risco que vai além do formato e toca o conteúdo. Um corte pode mudar completamente o sentido do que foi dito ou mostrado.
A pessoa autorizou aparecer em um determinado contexto, com uma determinada mensagem. Quando a edição isola um trecho, inverte a ideia ou associa a imagem a algo que ela não aprovou, surge a descontextualização. Nesse caso, mesmo que o material bruto tenha sido autorizado, o resultado final pode atingir a honra e a boa fama da pessoa.
É aqui que o artigo 20 do Código Civil e a proteção da imagem prevista no artigo 5º, inciso X, da Constituição Federal voltam a incidir. Autorizar a captação não é autorizar qualquer montagem. O poder de editar não inclui o poder de distorcer.
Esse detalhe é crítico em reels e shorts, cuja lógica é justamente recortar o momento mais impactante. O impacto que engaja pode ser exatamente o que descontextualiza.
Transformar um quadro do vídeo em thumbnail ou em imagem de divulgação é outro ponto sensível. Aquilo que era um instante dentro de um vídeo passa a ser uma peça estática, fixa, usada para atrair audiência ou promover a marca.
Esse uso tem natureza própria. Uma coisa é a pessoa aparecer em movimento, dentro do contexto do vídeo. Outra é ter o seu rosto congelado e transformado em capa ou anúncio, muitas vezes com texto e apelo comercial ao redor.
O mesmo raciocínio vale para o teaser. Ao selecionar e recombinar trechos para criar uma chamada, cria-se uma nova peça de comunicação. Se a finalidade promocional não estava clara na autorização original, esse desdobramento pode exigir consentimento adicional.
De todos os desdobramentos, o mais perigoso é usar a imagem em uma campanha diferente daquela para a qual foi autorizada. A autorização dada para a campanha de um ano, ou de um produto, não se estende automaticamente à campanha seguinte.
Aqui incide a Súmula 403 do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual a indenização pela publicação não autorizada de imagem com fins comerciais independe de prova de prejuízo. Ou seja, reaproveitar a imagem em uma nova campanha, fora do escopo autorizado, pode gerar dever de indenizar mesmo que a pessoa não demonstre qualquer dano concreto.
O prazo é outra armadilha. Autorizações costumam ter validade, e continuar veiculando a imagem depois de vencido esse prazo equivale a usá-la sem autorização. O material não expira, mas o direito de usá-lo sim.
Por isso, o reaproveitamento deveria ser sempre uma decisão consciente, checada contra o que a autorização realmente permite, e não um automatismo do time de conteúdo.
A boa notícia é que quase tudo isso pode ser previsto de antemão. Uma autorização bem redigida libera o desdobramento sem gerar passivo. Os pontos abaixo costumam fazer a diferença:
Com esses elementos, o time de marketing ganha liberdade real para desdobrar o conteúdo, e a empresa deixa de correr o risco de transformar um bom material em uma reclamação.
Reaproveitar conteúdo é inteligente. Reaproveitar sem checar a autorização é arriscado. A imagem de uma pessoa não vem com licença ilimitada só porque foi captada com consentimento para um fim específico.
A lição prática é direta: a autorização de imagem tem escopo, e corte, reel, short, thumbnail e nova campanha podem estar fora dele. O que garante o desdobramento seguro não é a criatividade da edição, e sim a amplitude do que foi autorizado por escrito.
Se a sua empresa produz conteúdo com pessoas e costuma reaproveitá-lo em novos formatos, vale revisar os termos de autorização de imagem que utiliza. Uma assessoria jurídica especializada pode redigir autorizações que permitam o desdobramento sem abrir espaço para indenizações. Entre em contato para avaliarmos os seus documentos.
Por
Maria Vitória Voltolini