Ter uma política ESG não significa necessariamente possuir uma estrutura […]
Ter uma política ESG não significa necessariamente possuir uma estrutura ESG.
A diferença aparece quando alguém pergunta:
“Como a empresa comprova que faz aquilo que a política afirma?”
Se não houver uma resposta clara, existe um problema de governança.
Imagine uma empresa que possua uma política determinando a avaliação periódica de fornecedores de alto risco.
A política foi aprovada pela diretoria e publicada no site.
Em uma auditoria, porém, descobre-se que ninguém sabe quem é responsável pelas avaliações, não há registros das análises e nenhum procedimento foi executado nos últimos dois anos.
Formalmente, existe uma política.
Na prática, não existe evidência de implementação.
Essa diferença é fundamental em compliance e ESG.
O Decreto nº 11.129/2022, ao estabelecer parâmetros para programas de integridade, considera elementos como gestão de riscos, registros completos, controles internos, diligência sobre terceiros e monitoramento contínuo.
No campo das contratações públicas abrangidas pelo Decreto nº 12.304/2024, a lógica é semelhante: políticas, controles, riscos sociais e ambientais, diligências e monitoramento integram a avaliação da efetividade do programa.
Já no mercado de capitais, quem voluntariamente adotar o reporte previsto na Resolução CVM 193 deverá seguir os padrões CBPS e ISSB e declarar sua aderência de forma explícita.
Em todos esses casos existe uma mensagem comum: não basta afirmar que existe um controle; é necessário conseguir demonstrar como ele funciona.
Suponha que uma empresa divulgue a seguinte meta:
“Reduziremos nossas emissões em 40% até 2030.”
Antes de publicar essa frase, algumas perguntas deveriam estar respondidas:
Sem essas informações, será difícil demonstrar futuramente se a meta foi efetivamente cumprida.
A mesma lógica vale para compromissos sociais.
Uma empresa que afirma avaliar 100% dos fornecedores críticos, por exemplo, deveria ser capaz de identificar quais são esses fornecedores, quais critérios os tornam “críticos”, quando foram avaliados e qual foi o resultado.
Nem toda empresa precisa começar com sistemas sofisticados.
Uma medida prática é criar uma matriz de evidências ESG.
Para cada compromisso relevante, a empresa registra:
Essa matriz não decorre de uma obrigação legal geral. É uma ferramenta de governança que ajuda a transformar compromissos abstratos em controles verificáveis.
Um problema frequente ocorre quando o jurídico recebe um relatório ESG apenas na versão final.
Nesse momento, as metas já foram definidas, os dados já foram consolidados e a comunicação já está pronta.
O ideal é participar antes.
A área técnica deve dizer o que os dados demonstram. O jurídico ajuda a verificar se a linguagem utilizada corresponde à evidência e se o compromisso publicado pode gerar alguma obrigação ou risco adicional.
Isso é particularmente importante para frases absolutas como “zero impacto”, “cadeia 100% sustentável” ou “nenhum fornecedor utiliza determinada prática”.
Quanto mais abrangente a promessa, maior tende a ser a necessidade de comprovação.
O SMN já aborda essa integração entre controles e governança no artigo sobre Compliance e ESG.
Documentar não significa apenas produzir o relatório.
É importante preservar a trilha que permitiu chegar ao número divulgado.
Planilhas, pareceres técnicos, certificações, aprovações internas, versões anteriores e documentos de fornecedores podem ser importantes para demonstrar a origem de determinada informação.
Sem essa trilha, a empresa pode possuir um número correto e ainda assim enfrentar dificuldades para explicar como ele foi obtido.
ESG consistente não depende da quantidade de políticas que a empresa possui.
Depende da correspondência entre três elementos:
o que a empresa promete, o que efetivamente faz e o que consegue provar.
O SMN Advogados auxilia organizações na revisão de políticas, controles, procedimentos e estruturas de governança, contribuindo para transformar compromissos ESG em processos claros e documentados.
Em matéria de governança, uma política que não deixa evidências de execução corre o risco de existir apenas no papel.
Por
Marcelle Soares